A procissão dos Mortos

Aqui em Jaraguá, no Largo do Rosário, morava uma mulher. Ela ficava sempre na janela pra explorar a vida dos outros, pra falar da vida alheia. Essa mulher só vivia falando, olhando, murmurando. Falava de um, de outro, de moça, de tudo. Entardecia e ela continuava na janela. Chegava a noite, todo mundo ia dormir, ela continuava lá, até a meia-noite explorando o tempo.
Um dia, dizem que quando ela estava na janela, passou bem em frente uma procissão. Era uma procissão muito grande. Ela ficou olhando um, olhando outro, mas não reconheceu ninguém. Quando então, saiu dessa procissão uma moça, chegou perto da janela e disse:
- Olha, dona, a senhora toma essas velas aqui. Eu quero que a senhora guarde elas pra mim até amanhã. Eu quero que a senhora me entregue elas amanhã, nessa mesma hora.
Aí ela recebeu as velas, mas ficou receosa, porque não estava reconhecendo ninguém daquela procissão. Depois que a procissão acabou, ela foi olhar as velas e viu que aquilo era canela de defunto. Era osso da canela de defunto. Ela ficou muito nervosa, por isso não conseguiu dormir a noite inteira, pensando naquilo, imaginando que tinha de devolver aqueles ossos.
Na noite seguinte, ficou lá na janela com as velas na mão. Quando veio a procissão, a moça que tinha entregado as velas aproximou-se dela e falou assim:
- Olha, escuta aqui. Isso aqui é uma procissão dos mortos. Essas velas são ossos de quem já morreu. Você não fique na janela mais, explorando a vida dos outros não, porque isso é muito feio, é muito ruim, é até pecado.

 

Dados
Acervo do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico de Jaraguá