O cavaleiro da Rua das Flores

Meu padrinho, de nome João, morava com minha avó, aqui na Rua das Flores. Foi ela quem criou ele. Quando ele ficou rapaz, quis se mudar da casa de minha avó, porque queria ter liberdade. Os velhos eram muito enérgicos. Não gostavam que ele ficasse até tarde na rua.
Em frente da casa de minha avó, tinha uma casa que era assombrada. Era de um pessoal que morava na roça. Então, ele resolveu alugar um cômodo, um quarto dessa casa e ficou dormindo lá. O povo vivia falando pra ele assim:
-Você vai ver... Você ainda vai ver assombração nessa casa.
Ele falava:
-Não tem nada. Eu não acredito nessas coisas.
Respondiam:
-Tem um cavaleiro que vem e desce aí na porta. O cavalo vem ferrado e tudo. Você ainda vai ficar assombrado.
-Não acredito nisso não. Não tem essa bobagem não.
E continuou lá nessa casa.
Quando foi um dia, era na quaresma e ele conta que chegou da rua, abriu a sala e entrou no seu quarto. Naquele tempo, não tinha luz aqui. Ele acendeu uma vela e pôs assim numa cadeira, na cabeceira da cama. Ele estava sem sono e pegou um livro pra ler. Ele era muito ativo, muito ladino. Era professor aqui em Jaraguá. Então ele pegou um romance e foi ler. Ele estava distraído com a leitura, nem tava lembrando de assombração...Nesse meio tempo, ele viu...O cavalo veio... pá...pá...pá... de ferradura. Entrou na calçada... Na porta da casa tinha uma pedrona grande assim... O cavalo veio, com aquele barulhão, bateu na calçada, fez "plá" na calçada. Nisso, ele escutou o cavaleiro descer, arrastando a espora. Ele tinha certeza que a porta estava trancada. Ele tinha acabado de fechá-la. E o cavaleiro continuava a arrastar a espora entrando pela casa adentro. Ele pensou: 'Ele vem aqui no meu quarto". Então ele abriu a janela e correu. Correu pra casa do meu pai que ficava perto da casa do meu avô. Tudo na Rua das Flores. Chegou lá só de cueca,chamando minha mãe e meu pai.
Minha mãe acordou meu pai. Ele sabia que João dormia sozinho lá nessa casa. Aí meu pai levantou na carreira, abriu a porta. João tava assim com os olhos arregalados, com medo. Entrou e disse pra minha mãe:
-O cavaleiro tá lá, tia. Entrou lá. Entrou lá dentro da casa. Não chegou a entrar no meu quarto, mas eu ouvi o arrastar de espora dele. Ouvi o barulho tudo, o cavalo até soprando na porta! Ouvi o barulho da ferradura batendo na pedra!
Contou ainda o que pensou na hora:
- Eu vou é sair daqui, porque se eu ficar ele vem cá no meu quarto.
A casa de mamãe era pequena. Não tinha lugar pra pôr ele, não tinha mais uma cama pra dar a ele. Nem uma rede não tinha. Aí meu pai disse assim:
-Vamos lá, João.
Meu pai e ele saíram, foram lá pegar o colchão dele.Chegaram lá, a porta tava trancada e a janela aberta. Abriram a porta, pegaram o colchão, fecharam a janela e a porta e vieram embora. Nesse dia, ele dormiu lá na casa do meu pai. Desse dia em diante, ele não quis pousar lá nessa casa mais não. Voltou pra casa do meu avô e largou de muita farra que ele fazia.
Muita gente andou vendo esse cavaleiro descendo lá nessa casa. Dizem que era o marido da mulher que morava lá. Falam que esta mulher não era assim muito séria. O marido dela morava na fazenda e vinha à noite pra ver se ela tava andando direito. Então, quando ele morreu, ficou fazendo essa arte aí, fazendo assombração.

 

Dados
Acervo do Conselho do Patrimõnio Histórico de Jaraguá